Narcisismo Sadio Versus Patológico
Na comédia de Shakespeare, fica claro, tanto para Olívia
quanto para a platéia, que o amor de Malvolio por si mesmo e
sua tendência a experimentar leves agravos com ataques devastadores
são indicadores de que ele está "doente".
Na prática psiquiátrica contemporânea, contudo,
a distinção entre graus patológicos e sadios de
narcisismo está repleta de dificuldades. Uma curta medida de
amor próprio não só é normal, como desejável.
As formas patológicas de narcisismo são mais facilmente
identificadas pela qualidade dos relacionamentos do indivíduo.
Uma tragédia que acomete tais indivíduos é sua
incapacidade de amar.
Relacionamentos interpessoais sadios podem ser reconhecidos por qualidades
tais como empatia e preocupação com os sentimentos alheios,
um interesse genuíno nas idéias dos outros, a capacidade
de tolerar a ambivalência em relacionamentos a longo prazo e uma
capacidade de reconhecer sua própria contribuição
aos conflitos interpessoais. As pessoas cujos relacionamentos se caracterizam
por essas qualidades podem ocasionalmente utilizar os outros para gratificar
suas próprias necessidades, mas essa tendência ocorre no
contexto mais amplo de um relacionamento sensível do que com
um estilo difundido de lidar com as outras pessoas.
Por outro lado, a pessoa com Transtorno de Personalidade Narcisista
aproxima-se das pessoas como objetos a serem utilizados e descartados
segundo as necessidades narcisistas, sem considerar seus sentimentos.
As pessoas não são vistas como tendo uma existência
separada ou necessidades próprias.
O indivíduo com personalidade narcisista freqüentemente
termina um relacionamento após um breve período geralmente
quando a outra pessoa começa a fazer demandas oriundas de suas
próprias necessidades. Mais importante, tais relacionamentos
nitidamente não "funcionam" em termos da capacidade
do narcisista de manter seu próprio senso de auto-estima (Stolorow,
1975).
Critérios Diagnósticos para o Transtorno de Personalidade
Narcisista:
1) reage às críticas com sentimentos de cólera,
vergonha ou humilhação (mesmo que não os expresse);
2) é explorador em relacionamentos interpessoais: tira vantagem
de outros para atingir seus próprios objetivos;
3) tem senso grandioso de sua própria importância; por
exemplo, exagera aquisições e talentos, espera ser notado
como "especial" sem realizações apropriadas;
4) crê que seus problemas são únicos e podem ser
entendidos somente por pessoas especiais;
5) preocupa-se com fantasias de sucesso ilimitado, poder, brilhantismo,
beleza ou amor ideal;
6) possui um senso de autoridade: expectativa irracional de tratamento
especialmente favorável; por exemplo, presume que não
precisa esperar numa fila, quando outros precisam fazê-lo;
7) exige constante atenção e admiração;
por exemplo, constantemente busca cumprimentos;
8) falta de empatia: incapacidade de reconhecer e experimentar como
os outros se sentem; por exemplo, fica aborrecido e surpreso quando
um amigo está seriamente doente e cancela um encontro;
9) preocupa-se com sentimentos de inveja.
Existem dois tipos de narcisistas ® os distraídos e os hipervigilantes:
Os tipos distraídos parecem não ter qualquer consciência
de seu impacto sobre os outros. Eles com freqüência podem
ser observados agindo em coquetéis e outras situações
sociais. Falam como que se dirigissem a uma grande platéia, raramente
estabelecendo contato visual e geralmente olhando por cima dos que os
rodeiam. Eles falam "para" e não "com" os
outros. Não percebem que estão sendo enfadonhos, de modo
que algumas pessoas abandonam a conversa e buscam outra companhia. Sua
fala é repleta de referências às suas próprias
realizações, e claramente necessitam ser o centro das
atenções. São insensíveis às necessidades
dos outros, a ponto de não permitirem que contribuam à
conversação. Freqüentemente são percebidos
como "não tendo desconfiômetro".
Os aspectos narcisistas do tipo hipervigilante, por outro lado, são
manifestados de maneira acentuadamente diferente. Essas pessoas são
peculiarmente sensíveis ao modo como os outros reagem a elas.
De fato, sua atenção está continuamente voltada
para os outros, em contraste com a auto-absorção do narcisista
distraído. Escuta os outros com cuidado, em busca de qualquer
reação crítica, e tende a sentir-se desprezado
a todo momento. "Um paciente narcisista estava tão sintonizado
com as reações do terapeuta, que toda vez que este mudava
de posição em sua cadeira ou pigarreava, o paciente via
isto como um sinal de aborrecimento. Quando este terapeuta retirou uma
folha morta de uma planta que estava sobre a mesa, o paciente sentiu-se
humilhado e exigiu um novo terapeuta".
Esses pacientes são tímidos e inibidos a ponto de se apagarem.
Evitam as luzes da ribalta porque estão convencidos de que serão
rejeitados e humilhados. No núcleo de seu mundo interno encontra-se
um profundo sentimento de vergonha, relacionado ao desejo secreto de
se exibir de maneira grandiosa.
Confira sinteticamente os dois tipos de Transtorno de Personalidade
Narcisista citados acima:
- Narcisista Distraído:
1. Não tem consciência das
reações dos outros;
2. É arrogante e agressivo;
3. É absorto em si mesmo;
4. Necessita ser o centro das atenções;
5. Não tem "desconfiômetro";
6. É aparentemente inacessível a ser magoado por outros.
- Narcisista Hipervigilante
1. É altamente sensível às
reações dos outros;
2. É inibido, tímido ou mesmo apagado;
3. Dirige a atenção mais para os outros do que para si
mesmo;
4. Evita ser o centro da atenções;
5. Escuta cuidadosamente os outros em busca de evidências de descaso
ou crítica;
6. É facilmente magoado, tende a sentir-se envergonhado e humilhado.
Embora ambos os tipos lutem pela manutenção
da auto-estima, tratam desse assunto de maneiras extremamente diferentes.
Os narcisistas distraídos tentam impressionar os outros com suas
realizações, ao mesmo tempo que se isolam das feridas
narcisistas, excluindo as repostas dos outros. Os narcisistas hipervigilantes
procuram manter sua auto-estima evitando situações vulneráveis
e estudando intensamente os outros para "descobrir" como se
comportar. Atribuem projetivamente sua própria desaprovação
das fantasias grandiosas aos outros.
Esses dois tipos podem ocorrer de forma pura, mas muitos pacientes apresentam-se
com uma mistura de características fenomenológicas de
ambos os tipos.
Tratamento
Alguns pacientes simplesmente não toleram nada além de
uma abordagem empática e próxima da experiência.
Qualquer desvio será respondido com prolongados "fechamentos",
ou seja, o paciente recusa-se a falar e sente-se mal compreendido, ou
mesmo decide abruptamente abandonar a terapia.
Muitos pacientes requerem a abordagem da psicologia do self, no início
de seu tratamento, pois ela ajuda a construir uma aliança terapêutica
baseada num sentimento de que o terapeuta entende e empatiza com a experiência
de vitimização.
Alguns genitores de pacientes narcisistas tendem a ser excessivamente
indulgentes. Eles parecem encorajar a grandiosidade através de
um padrão de espelhamento excessivo. Eles cobrem seus filhos
de admiração e aprovação, fazendo com que
se sintam realmente especiais e dotados. Quando essas crianças
crescem, são repetidamente abaladas, porque os outros não
lhes respondem como seus pais o fizeram. Por isto, a terapia deve ser
um esforço de colaboração, no qual paciente e terapeuta,
juntos, descobrem as origens das dificuldades do paciente, sem forçar
rigidamente o material a ajustar-se a uma teoria e outra.
Estabelecida uma aliança, o terapeuta poderá começar
a confrontar os pacientes com suas próprias contribuições
às suas dificuldades interpessoais, tais como expectativas extraordinárias
que os outros não conseguem satisfazer.
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